Ilustra-dores e Arte-istas

– Por Tárik Hermano

Ze Otavio - Dark Side

A pergunta é antiga e a resposta ainda está soprando no vento, embora cada um de nós ouça uma coisa diferente: o que é fazer arte?

Para alguns, a coisa se foca na expressão. Há aqueles que priorizam o domínio da técnica. Enquanto uns ainda estão presos numa estética do “belo”, outros já passaram pelo “intenso”, pelo processo, pelo “feio”, pelo meio e se esqueceram do fim – a obra.

Afinal, se na renascença a coisa estava muito bem definida em seus mínimos detalhes (suporte, tinta, técnica, motivo, objeto, cor, luz e composição), hoje carregamos o pesado fardo dos revolucionários que não queriam limites para a sua criação – o pesado fardo da liberdade, da falta de parâmetros que nos coloca na tênue linha entre arte e “aquilo que qualquer macaco pode fazer com tinta e pincel”.

Ora, para tirar as amarras do nome de sua criação há que se criar novos nomes. Nomes esses que surgem com a função de abrigar alguma especificidade que antes carregava em si a quintessência da “arte” e a partir de alguma revolução passa a denominar apenas mais um de seus componentes.

Hoje, depois dos “– ismos”, “neo – ismos”, “pre ismos” e “pos – ismos”, temos uma série de partições e repartições. E os repartidos há 400 anos poderiam ser chamados de artistas. Designers, arquitetos, redatores, artesãos e ilustradores são alguns desses exemplos.

Peter Newell - Ilustração dos personagens de Alice no País das Maravilhas - 1890

Ilustração, por exemplo, é, por definição, uma forma de visualização criada para elucidar ou aprimorar um texto, seja pela dificuldade de apreensão da ideia apenas com as letras ou enriquecimento do conteúdo escrito.

Se foi dessa forma que a definição foi criada, amputando o corpo de “artistas” para aumentar a possibilidade da arte, vemos hoje esses “tradutores” da linguagem verbal em visão plástica subvertendo essa ideia. Quem “começou” como um tradutor criou hoje uma nova linguagem artística.

Munidos de interpretação, referências, conceitos e das mais diferentes técnicas, os ilustradores vem cada vez mais particionando a si mesmos e a suas obras em trabalhos autorais e comerciais. Enquanto esses são absorvidos vorazmente pelo “mercado” desde 1500, aqueles vem tomando cada vez mais espaço nas galerias e museus.

Que venham mais ilustradores! Sua linguagem, seu traço e suas obras são muito bem vindas pela arte, que hoje vem tratando de trazer de volta alguns de seus filhos pródigos.

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