April, 2012


22
Apr 12

BOB DYLAN em Brasília

Por Eduardo Pinheiro

A voz de Bob Dylan

Cantor e compositor norte-americano faz show em Brasília repleto de clássicos sem se deixar levar pela nostalgia

Photo: Lydia Himmen

 

Ao contrário do que cansam de repetir por aí, não há nenhum problema com a voz de Bob Dylan. O show no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília, na última terça-feira (17) foi justamente uma reverência à voz de um dos maiores artistas do século XX. Acompanhado de duas guitarras, um contra-baixo, bateria e uma slide-guitar, Dylan subiu ao palco pontualmente às 21h30 com uma bela versão de “Leopard Skin Pill Box Hat”. Mas foi em “Don’t Think Twice, It’s Allright” que a mágica se fez. A voz do bardo, aquecida, rompeu o alcance da estrutura de som e alçou voo, buscando, além do espaço físico do ginásio, a alma dos quase 5 mil presentes.

 

Enquanto a banda se esforçava para dar corpo a clássicos e novas composições, Dylan lançava versos com a precisão de um esgrimista. A voz torturada, rascante, rouca era usada ora como uma arma de combate tosca e violenta, ora como um instrumento de fé de um paladino que conquista homens. Os versos “Don’t get up gentlemen, I’m only passing through/People are crazy and times are strange/ I’m locked in tight, I’m out of range” declamados com um semi-sorriso no rosto mostram a gravidade do que se passava em cima do palco. A luz tênue fazia o rosto do artista desaparecer no lusco-fusco. O palco simples, a luz e a banda pareciam uma extensão da persona atual de Dylan: contido, misantropo e direto.

 

“Simple Twist of Fate”, sexta música do show, recebeu um arranjo quase mântrico e suave. A dor do desencontro presente nos versos foi atenuada pela velhice. Dylan embalava sua canção com muita delicadeza e carinho. Uma bela versão. Em “Summer Days” e “Spirit on the Water” a banda acelerou os compassos e entrou num rockabilly, envolvendo a voz de Dylan de juventude e alegria. Curiosamente, as canções estão nos discos mais recentes do compositor. Já em Hard Rain’s A-Gonna Fall a voz se sobrepôs de novo à banda. O hino anti-bélico foi entoado com a força poética de mil obuses atingindo em cheio a plateia, que vibrou em resposta.

 

Entre os vincos de luz do palco, era possível ver no rosto de Dylan o prazer em estar ali. O artista transitou entre a guitarra e o teclado, rompendo os limites físicos próprios da idade e tirando dos dois instrumentos declamações de amor à própria obra. Mas a gaita foi o instrumento usado pelo compositor para unir o presente ao passado. Dylan rememorou no som da gaita a inquieta juventude e seus discos cheios de boas novas. Reviveu cada passo de sua contraditória carreira com a força ancestral e rústica que a música folk evoca. Chama ao presente todos os dylans que já se foram.

 

E aquelas outras personas ficaram de fora quando sua voz volta. Justamente a voz áspera e falha é que impede que Dylan não seja engolido pelo passado. Com a rouquidão tomando conta do ginásio, “Ballad of a Thin Man”, “Like a Rolling Stone”, “All Along the Watchtower” e “Rainy Day Womam #12 &35″ vieram em sequência explosiva e vibrante para fechar a noite. Bob Dylan segue assumindo todos os talhos que o tempo fez.

 

 

Oscar Fortunato, Tarik Hermano, Taynara Borges, Eduardo Bueno, Eduardo Pinheiro e Marcellus Araújo, todos ainda em estado de graça pós show. Photo: Lydia Himmen

 

Review do Eduardo Bueno deste mesmo show pode ser degustado aqui

http://dylanesco.com/bob-dylan-em-brasilia-por-eduardo-bueno/

 

Review de Pedro Palazzo deste mesmo show pode ser degustado aqui

http://screamyell.com.br/site/2012/04/22/bob-dylan-ao-vivo-em-brasilia/

 

 

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