Jovens Colecionadores de ARTE, na ZELO mag


Foto: Angela Motta

 

JOVENS COLECIONADORES DE ARTE

Por Andrea Regis

 

Eles estão entre os 30 e 40 anos de idade e escolheram colecionar obras de arte, fazendo emergir um tímido, mas promissor, movimento no mercado local.

 

Com bom humor, Frederico Telho nem hesita em contar que, para a família, ele não passa de um louco. Assim o advogado e servidor público federal é considerado por ter as paredes repletas de obras de Arte – do chão ao teto – com a cumplicidade e aval da esposa Eloína.  Aos 32 anos, Frederico é apenas um dos representantes de uma nova geração de consumidores de Arte que desponta em Goiás. Eles são jovens que elegeram como um dos grandes prazeres da vida serem colecionadores de Arte.

 

O ano de 2006 foi o divisor de águas. “Entrei no Atelier Galeria de Arte e Molduras, em Goiânia, e vi um quadro de Antônio Poteiro, no cavalete: era Ciranda de Anjos, de 2002, com fundo azul, diferente das outras do artista. Perguntei se haviam deixado para trocar a moldura e o dono do local (hoje, meu caro amigo senhor Ronaldo), disse que era para vender, em consignação. Minha sogra, Maria do Rosário, me acompanhava e incentivou a comprá-lo. Não hesitei! Foi minha primeira obra de Arte e pela qual tenho um carinho especial. Assim, sem saber, me permiti. Deixei que minha adoração pela Arte fluísse e que eu pudesse adquirir outros trabalhos”.

Diversidade

Hoje, Frederico tem uma coleção eclética com mais de 120 peças, entre telas, papeis e esculturas. Na verdadeira galeria estão, entre outros, Siron Franco, Pitágoras, Marcelo Solá, Carlos Rezende, Emmanuel Nassar, Luiz Mauro, Amaury Menezes, DJ Oliveira, Roos, Liah, Fernando Luchesi, Oscar Fortunato, Octo Marques, Fernando Carpaneda, Selma Parreira, Zé César, Poteiro, Lupe, Tai Hsuan-an, Marcelo Peralta, Waldomiro de Deus, El Mendez e Rustoff. Geralmente, a decisão de compra é dele. Noutras, a esposa ajuda. Frederico também costuma consultar amigos que são profissionais da área – caso de Lydia Himmen, da Plus Galeria. Aliás, além da Plus, ele é cliente do Beco das Artes e já comprou na Época e Arte Plena, além do Atelier de Molduras.

 

A jornalista e blogueira Larissa Mundim, outra jovem colecionadora, endossa o discurso de Frederico. “Escolho minhas próprias obras. Às vezes eu as encontro, às vezes elas me acham. Raras foram as vezes em que saí de casa com o objetivo de adquirir uma obra e a tivesse encontrado”.  Aos 38 anos, ela tem uma pinacoteca com 22 obras. “A coleção contempla o que há de melhor entre os contemporâneos goianos dos últimos 20 anos, como Marcelo Solá, João Colagem, Luiz Mauro, Juliano de Moraes, Oscar Fortunato, Kboco, Mateus Dutra e Ebert Calaça”. A primeira, vale lembrar, foi a de João Colagem, há 12 anos.

 

Como viaja muito, adquire obras de artistas de outros estados e estrangeiros. “Minhas últimas aquisições ocorreram em Belém, onde conheci Eliene Tenório, que tem um trabalho instigante que transita pelo universo feminino na recriação de corselets, e uma gravura do equatoriano Oswaldo Guayasamín, importante ativista dos direitos humanos.”. As últimas aquisições foram na Galeria Potrich e Plus. Mas ela compra ainda exposições, ateliês e ainda faz o que chama de ‘escambos’, nas trocas de serviços prestados em assessoria de comunicação e assessoria de imprensa.

 

Herança

Larissa espera que a filha siga o mesmo caminho. “Fui estimulada por meus pais a me envolver com a cultura. Sabendo da importância desse tipo de atitude, incentivo minha filha à formação artística, que será estruturante de uma jovem e adulta mais sensível, mais capaz de perceber o mundo em suas sutilezas. Pra mim é essencial”.  Tal e qual Larissa, o empresário Alexandre de Faria Jardim, 29 anos, foi influenciado pela família. “Sempre me relacionei com Arte. Na casa dos meus pais existem exemplares representativos da arte goiana como Antônio Poteiro, Sanatan, Fernando Costa Filho, Siron Franco e Selma Parreira”.

 

Alexandre não lembra exatamente quando começou a colecionar, mas lembra-se do momento quando a Arte o tocou pela primeira vez. “Meu interesse partiu de um desenho que o Siron fez para mim quando eu era ainda criança”. ?Hoje sua coleção conta com nomes como Cildo Meireles, Mira Schendel, Siron Franco, Antônio Poteiro, Pitágoras, Fernado Costa Filho, Suelita Costa , Cleber Gouveia e Marcelo Solá. Esse último assina sua primeira aquisição, oito anos atrás.  Elas são provenientes de galerias diversas. Para comprá-las,  Alexandre vale-se de várias influências, como do arquiteto e amigo Fábio Marques, do conhecedor Marcos Caiado e de seu pai. “Escolho, a princípio, pelo gosto. Depois vêm os critérios de qualidade e valor”.

 

Leonora Rocha Lima Nogueira, 33 anos, faz coro com o contemporâneo Alexandre. “Quando vejo algo que gosto, seja numa exposição, numa galeria de arte ou pela internet, se for financeiramente viável, compro”. A designer de joias, coincidentemente, conta com os palpites preciosos de Marcos Caiado e também Lydia Himmen, os cicerones de Alexandre e Frederico, respectivamente. “Eles são ótimos no que fazem”, atesta Leonora, que cresceu em um ambiente inspirador. “Meus pais sempre compraram arte. Minha mãe é artista e meu pai é um grande apreciador de todas as artes”.

 

Modesta, Leonora ainda não se considera uma colecionadora. “Não é grande a frequência com a qual compro, mas acredito que compro umas cinco obras por ano. Não sou uma grande colecionadora. Estou apenas começando”. Impressiona, contudo, o carinho que ela tem pelo acervo pessoal. Leonora é simplesmente encantada com o que tem, desde o primeiro item, um desenho de um amigo alguns anos atrás, quando ainda cursava Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás. “Tudo que tenho, amo e valorizo muito. São alguns trabalhos do Marcelo Solá, vários do Oscar Fortunato, outros do Rodrigo Flávio, Pitágoras, uns do Poteiro, uma caixa de charutos muito especial pintada por Siron Franco e, recentemente, comprei um lindo trabalho do Rustoff”. As preciosidades vêm da galeria de Marcos Caiado, do Atelier de Molduras e da Plus.

 

Paixão, subjetividade e negócio

Talvez Frederico, Larissa, Alexandre e Leonora nem se preocupem com isso, mas os quatro são atores decisivos nos rumos que a arte toma na cidade: ao comprar obras de arte regularmente, incentivam diretamente a produção artística. Fato. O que motiva cada um deles, contudo, é o prazer subjetivo de usufruir da experiência de ter uma obra de arte por perto – e tudo que ela pode provocar. Leonora, por exemplo, afirma adorar conviver com seus quadros e desenhos nas paredes da casa. “É muito saudável a relação com a arte. Acho triste paredes vazias. Ainda não compro como investimento, mas para satisfazer a minha vontade de ter algo belo, feito por um artista talentoso e sensível”.

 

Frederico é outro que abomina paredes em branco. “Gosto da casa cheia, das paredes com a cor das telas, cheias de chão a teto, de lado a lado. É um estilo. Quando entram em minha casa, muitos acham estranho, outros quase não comentam, alguns elogiam, mas nada disso importa. Eloína e eu gostamos da casa assim, ‘empencada’! Nunca comprei por investimento, embora possa garantir que não se perde dinheiro. Compro, então, porque gosto e tenho prazer, alegra meu espírito e faz bem para a alma”.

 

Larissa, por sua vez, confessa que começou a coleção de forma instintiva e sem pensar muito no que estava fazendo, “motivada pelo impulso do ‘encontro’ com a obra”. “Hoje, mais atenta aos meus processos internos e mais compreensiva de minhas decisões, sei que investi em arte, primeiramente, porque aprendi a valorizar o trabalho artístico, desde a minha infância. Depois porque a convivência com o simbólico é importante pra mim, me enriquece, me faz pensar. Estar cercada pela arte, portanto, dá mais sentido à minha vida”.

 

Alexandre é o único a assumir o lado racional do ato. “Compro porque gosto, tenho uma admiração muito grande e me considero um investimento.?Mas é bom lembrar que comprar uma obra de arte é totalmente diferente de comprar uma roupa: você não compra uma obra por necessidade imediata igual uma roupa, um sapato, depende do momento, da obra, do artista”.  É a atenção ao caráter especulativo da arte sem estar, necessariamente, especulando.

 

Sonhar não faz mal

Perguntamos a nossos entrevistados o desejo máximo de cada um

Leonora: “Posso ir longe? Uma bailarina de Degas, em pintura. Sendo mais realista, um enorme e belo Siron”.

Frederico: “Quem não sonha com um Volpi, um Di Cavalcanti, uma Anita Malfatti? Eu sonho, claro que sonho… Sonho alto! Mas, para ser mais realista, tenho sonhado ultimamente com um Confaloni e uma Ana Maria Pacheco”.

Larissa: “Para o momento… eu já tive meu sonho realizado, que era ter uma tela pintada pelo goiano Carlos Sena. O contato mantido com a obra dele me marcou profundamente, assim que me mudei para Goiânia, aos 17 anos, em minha primeira visita ao Museu de Arte de Goiânia (MAG), no Bosque dos Buritis. Naquela ocasião, a tela Posto em Cena me seduziu completamente e pensei comigo mesma: Ele deve ser o maior artista plástico de Goiás. Quem me ajudou a encontrar a obra perfeita de Carlos Sena para mim foi Ludmilla Potrich. Ela não sabe, mas essas coisas a gente nunca esquece, e sou eternamente grata”.

Alexandre: “Tenho vários, mas eu gosto muito das bandeirinhas do Volpi”.

 

E a Arte, como vai?

Para nossos entrevistados, mais uma vez unânimes, o mercado está crescendo sim, mas com seus percalços. “Se sou taxado de louco e perdulário por parentes e amigos, já que gasto frequentemente com Arte, imagino, então, como é turbulento o caminho daqueles que produzem e comercializam Arte. Falta incentivo público, muitas vezes. Falta educação e informação. Falta reconhecimento e valorização, quase sempre. Falta aproximação de cada um de nós. É preciso, enfim, mais comprometimento do governo, em suas diversas esferas, bem como da sociedade em si. Vamos aprender a cultuar a Arte e desenvolver o hábito de comprar”, diz Frederico.

 

Leonora vê uma relação positiva e mais consciente entre o público e a arte. Para melhorar? “Mais e mais exposições. Nas ruas, nas galerias, nos museus… por toda parte”.  Alexandre, por sua vez, acredita que o mercado cresce, mas ainda destaca São Paulo como responsável por “movimentar o mercado cada vez mais com cifras nunca antes vistas, assim leilões internacionais onde artistas brasileiros contemporâneos nunca se destacaram tanto”.

 

Larissa, assim como Frederico, envolve o poder público na questão. “Ações complementares podem provocar avanço nesse sentido, como o estímulo à produção, fortalecimento da arte educação, promoção de eventos e projetos que, de forma não formal, aproximem o artista e seu processo criativo de seu público”.

 

O marchand Marcos Caiado acredita que “sempre haverá mercado em porque sempre haverá pessoas sensíveis à arte”. “Mas ele poderia ser ampliado porque falta políticia de preservaçao da memória e de divulgação do trabalho dos artistas”. Esse último fator implica, inclusive, na popularização da arte. “Se não existe acesso a arte, muitas pessoas não se interessarão por ela. Gostar de arte sinaliza um alto grau de sofisticação”.

 

Na opinião de Lydia Himmen, artivista e proprietária da Plus Galeria,  “o mercado de Arte está muito aquecido, no mundo inteiro. Borbulham feiras de Arte por todos os lados. Inclusive, a primeira feira de arte online (mundial) já vai para sua segunda edição em 2012, a Vipartfair. Localmente, ainda falta muito. Mas não faltam os talentos. Eles estão todos aí, produzindo, e mais: produção constante e de alta qualidade. Não perdemos para ninguém, neste quesito. Mas estamos atrás em praticamente todos os outros: faltam espaços, públicos e privados. Faltam iniciativas, educação (da básica à avançada), cultura, hábito, calendário de exposições, feiras de Arte acontecendo aqui também (por que não?). O mercado local esboça um aquecimento. Trabalhamos para isso, mas ainda é preciso muito, muito mais”.

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3 comentários

  1. Venho caminhando lentamente na divulgação dos meus trabalhos até pelo pouco tempo de carreira, me formei em 2010 em Artes Plásticas, de qualquer forma uma boa noticia tenha para lhe dar. Conheci um inglês que resolveu criar o Centro de Arte Antonino esse é meu nome, na cidade de Faverolle-sur-cher, França.
    Conheça meus trabalhos através do facebook antonino imaginarium e do site antonino imaginarium.
    Neste site com certeza encontrarás informações sobre este projeto em terras francesas. Se gostar dos meus trabalhos ficarei feliz a com a divulgação.

    Grande abraço Antonino

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