Carlos Rezende na PLUS

Carlos Rezende e mural feito em parceria com Sol LeWitt

- Por Tárik Hermano

O artista mineiro Carlos Rezende, residente em São Paulo e na Itália, tem agora obras na PLUS. Para você que não conhece, Carlos Rezende é um artista multimídia. Trabalha com desenhos, murais geométricos, gravuras, afrescos –  estudados na Accademia di Belle Arte di Roma –, tintas, objetos (preferencialmente o cubo, forma pesquisada pelo grande artista conceitual e minimalista Sol LeWitt, com quem trabalhou na confecção de murais), textos e fotografias.

Arquiteto por formação na FAU USP, trabalhou tambem em murais com Ruy Ohtake, filho conceitual da escola brutalista na Arquitetura (filho biológico da artista Tomie Ohtake). Atualmente trabalha num livro sobre Veneza com o fotógrafo Claudio Edinger. Alem de expor em Barcelona agora em setembro, prepara exposições na sequência em Los Angeles e Roma.

Sua obra, vasta e profunda, é cheia de nuances e busca temas como vida, morte, sexualidade, imortalidade e decadência, alem de procurar, como o próprio Rezende diz, propor “um novo conceito de paisagem” a partir de textos, fotos, formas geométricas planas e espaciais, especulações sobre a espacialidade da obra e sua possibilidade de gerar discussões e ideias.

Seus cubos são uma espécie de “homenagem a Lewitt”, explorando as variadas interações dessa forma com o espaço e seu espectador. Contem, inclusive, uma série com mais de cem obras a partir de estudos sobre a poeta goiana Cora Coralina. Nessa série há caixas com e sem conteúdo (como cornetas coloridas, varetas, crânios de borracha e outros), cada uma com frases de poemas de Cora, alem de variações criadas pelo próprio autor.

Anatomias como Paisagem - Cubo 1

"discriminação, talento musical, olfato" - 78cm x 78cm, aquarela sobre hahnemulle 310g, 2010

Já seus Crânios são um assunto a parte. Esteticamente equilibrados e nem por isso menos provocativos, denotam seu fascínio pelo tema, iniciado na infância e extensamente estudados durante sua vida. Não apenas seguindo o hype dos crânios (fetiche das paredes de consultórios médicos. Um pouco óbvio, não?), seus estudos de anatomia vem de muito tempo, se consagrando com desenhos equilibrados, vibrantes, cinestésicos e originais. Crânios mapeados: sensações humanas representadas em cores e textos.

"causalidade, resistência, configuração", 78cm x 78cm, aquarela sobre hahnemulle 310g

O inusitado, sempre presente em sua obra, se mostra muito bem na série oferecida pela PLUS a um preço extremamente acessível. Com cores vibrantes e presença marcante, trazem sua força independente do uso.

"comments on human behavior", 100cm x 70cm, aquarela sobre hahnemulle 310g

Mais que isso? Melhor deixar o próprio artista falar:

MEMORIAL POÉTICO – 35 CUBOS E SUAS VARIAÇÕES
Por Carlos Rezende

Uma roda gira.
Tomemos uma situação óbvia. Uma roda gira por um impulso. Um cubo gira por um impulso.
O cubo gira por um impulso provocado por algo, pelo sopro de uma corrente de vento.
Numa determinada situação, por exemplo, uma pena suspensa no ar, sustentada pelo sopro do vento, presa ao teto de uma sala por uma linha. Ao soprarmos a pena, ela não se move. Trata-se de uma pena virtual, uma mentira.
Outra mentira, uma cascata – uma corrente de água desce por um caminho de pedras.
Pela cascata, pelo caminho das águas por entre as pedras, sobe uma mulher. Nada até o topo da encosta aquosa e retorna, maiô azul colado ao corpo. Pele branca da mulher, molhada. Depois de algum esforço, solta o corpo. Deixa-se levar pelo fluxo das águas sentido rio abaixo.
Águas rolam como cubos; às vezes, como paralelepípedos.
Diante das árvores altas, corre a veia aquosa lamacenta, calcária. Volume de água sagrada, amarela, ocre.
Uma extensa alameda diante dos olhos, longilínea à espera de que a percorramos. Uma homilia. O banco de pedra à beira das fontes.
Do nada em volta, não nos apercebemos. Apenas da pena, presa ao teto desta sala.
Quando, diante de uma coleção de penas, a primeira coisa que notamos é a sua forma peculiar, longilínea, são elas quase transparentes, ocupantes de um certo lugar.
Então, vejamos, um conjunto de cubos. Um cubo laranja, outro cubo azul, outro amarelo, e assim por diante. À medida que os cubos rolam, notamos mudança na tonalidade dos lados. Num cubo de lados coloridos diferentes, um lado com uma cor diferente, cinza.
Volte-se para dentro de você e observe. Podemos notar a existência de alguns compartimentos, de diversos tamanhos, compartimentos de memória. Compartimentos frágeis que podem ser abertos com a força de um sopro. O sopro, não podemos medi-lo. O equilíbrio, podemos imaginá-lo, ao observarmos o deslocamento de um pêndulo, qualquer pêndulo.
O sopro que abre nossos compartimentos de memória desloca o pêndulo que balança e nos dá a noção do equilíbrio.
Quando mais profundas se tornam essas divagações, mais grave o meu desconforto, até me sufocar completamente.

ENTREVISTA DE CARLOS REZENDE PARA A PLUS

PLUS: Como foi a sua trajetória da Arquitetura para a produção artística? Qual a influência do estudo na FAU para a sua produção?

Carlos Rezende: FAU é uma celeiro de artistas, uma alternativa à ECA, que forma professores. Na FAU você não tem que estudar Arte, o que não deixa de ser uma contradição em termos, arte não se estuda, se informa. Artista se nasce, é uma adorável condenação, artista é um gorila albino, como diz o Cláudio Edinger sobre os fotografos artistas.

PLUS: Percebe-se um interesse forte pela anatomia – crânios e afins – e tambem pela geometria – traços, cores e sólidos – em seu trabalho, alem de um uso de textos verbais em algumas obras. Poderia falar de onde vem esses interesses?

CR: As anatomias vem da minha infãncia, é uma curiosidade infantil sobre como somos feitos. Vem das tardes no depósito do meu avô, que era médico e farmacêutico. Passava as tarde brincando com moldes anatomicos, ampolas vazias, instrumentos cirúrgicos velhos. Todo homem tem dentro uma criança, talvez seja uma forma de reviver esses instantes duma infãncia feliz, de relembrar os dias na casa dos meus avós. Estudei a anatomia médica em volumes antigos, alguns da Idade Média. Muitos dos desenhos de anatomias e corpos dissecados possuem um alto teor artístico, veja os sanguíneas de Leonardo sobre anatomias. Tenho um tratado sobre anatomia de um autor italiano que foi escrito em sonetos.
A geometria, na sua versão matemática veio depois das formas primárias, do uso dos elementos essenciais na representação. Onde vemos geometria podemos ver uma racionalização abstrata das formas orgânicas através do desenho.

PLUS: Percebemos um conceito bem formado e coerente ao longo de sua produção. Como você acha que o uso do texto pode influenciar uma produção artistica, tanto em relação ao artista que a produz quanto ao consumidor?

CR: A coerência vem da reflexão sobre o fazer, da análise, da absoluta falta de pressa. Escrevo crônicas sobre arte contemporânea quinzenalmente há quase dez anos para um jornal.
São formas de expressão apenas, a escrita ou o desenho. Vejo num quadro ou numa folha de papel superfícies de registro, suportes para a inscrição das nossas idéias.

trecho do prefácio da renata pizzalunga ao meu livro “os véus, A” (Telas travestidas em textos.)

A obra “literária” de Carlos Rezende, pictoricamente cavada no terreno das palavras, evidencia um exercício criativo, ou mesmo uma manifestação do fazer artístico em suportes outros, porquanto grafando seu estilo com palavras que apresentam formas, cheiros, sons como uma composição multimídia, acaba invadindo outros domínios da arte, como se fora uma transliteração no mínimo colorida do que tem a dizer.

O que aqui se apresenta é o artista que, usando “palavras-pigmentos”, extrapola formas de sua criação em afinação segura com sua imaginação plástica.

Ele não tenta nos confundir com a instrumentalidade habilidosa com a qual maneja a concepção de sua arte. Mas, enquanto assim o faz, permite generosamente que tenhamos contato, acesso, a seu método perceptivo. Quer, deseja o contato com esse fazer artístico.

As imagens que “ilustram” a obra, que são imagens do Porto de Reykjavik, na Islândia, e de autoria do próprio Carlos, são fotografias que ecoam a experiência sensorial da leitura de Ode Marítima de Fernando Pessoa. Uma mistura excêntrica que resulta em belas e insólitas imagens, provavelmente melhor definidas quando se lê um trecho de um dos poemas dele, Carlos, como “estranhas obsessões que se fixam na sua memória… cascos de navios submersos em angustiosa pose”.

Para aquele que for navegar por esta obra, pede-se o olhar atento e a lembrança da vitalidade criativa do autor, para não deixar de perceber que sim, é possível, ao longo da exploração de cada um dos poemas e imagens poéticas, chegar a um lugar onde “há uma sinfonia de sensações incompatíveis e análogas” (Ode Marítima, de Fernando Pessoa.)

Renata Piazzalunga

PLUS: Tendo trabalhado ou ainda trabalhando com nomes como Sol Lewitt, Ruy Ohtake e Claudio Edinger em produções internacionais variadas, como você encara essa visão de artista que trabalha em midias diferentes, em cooperação? O desenho que toma nova forma a partir do volume em que ele está inscrito, a fotografia, a arte e arquitetura?

CR: São momentos diferentes do teatro da vida. Vejo o trabalho em parceria como uma boa desculpa para compartilharmos horas em comum onde há a troca de experiências, existe a amizade antes de tudo, a troca, o escâmbio, o contrabando de idéias.

PLUS: Finalizando, fale um pouco mais sobre os seus cubos. Os de madeira, os desenhados, os gratuitos que as pessoas fazem o download e montam.

CR: O cubo é um elemento essencial. Foi examinado por Sol Lewitt à exaustão até servir de suporte aos seus últimos wall drawings. Continuo esse trabalho, uma espécie de Homage to the Cube, como o título da série de Albers sobre o quadrado, Homage to the square.

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