Sobre a Feira, por Tarik Hermano

Recentemente li um trecho do livro A Grande Feira, de Luciano Trigo em que ele dizia “O fato é que, para a maioria das pessoas, a produção artística contemporânea não inspira nem emociona, não desafia, não contesta, não modifica nem derruba fronteiras, não altera a compreensão do mundo, não torna a vida culturalmente mais rica”. Alguns fatos que vinha observando se encaixaram quando li a afirmação do autor. Anteriormente, enquanto via uma entrevista do pensador francês Edgar Morin, o vi falando sobre sua juventude em Paris nos anos 60. Ele falava que durante essa época ele percebia que os jovens viviam num espaço novo, cheio de possibilidades e ideias. Confrontando os ideais vigentes, de seus país, de seu governo. Percebe-se que viviam numa espécie de Terceiro Espaço, o lugar onde o novo surge, ou melhor, ali onde a novidade se reinventa.

O que realmente me intrigou foi que na entrevista, ele citou um evento em 1963, A noite da Nação, em que uma rádio chamou os jovens pra se reunirem numa praça de Paris, beber e ouvir um ritmo novo e transgressor: o Rock. Aquele encontro, com 150.000 jovens vivendo um momento único no mundo, acelerados pela sociedade, se transformou numa baderna. Começou-se a quebrar coisas, arrancar árvores, virar carros, saquear lojas, etc. Me lembrei nesse momento que ainda ontem vi em algum jornal que, na França, as pessoas começaram a combinar encontros pelo Facebook. Essa situação aumentou para encontros em que mais e mais se encontram numa praça e vão beber e conversar. Em Nantes, oeste da França, um jovem caiu de uma ponte saindo de um desses encontros, que havia reunido nada menos que 9 mil pessoas,  segundo as autoridades francesas. 93 pessoas socorridas nos hospitais após tal encontro. Ainda que com suas diferenças, a história continua dando suas voltas. Percebam, as mesmas características: uso de tecnologias já comuns – no entanto, de uma maneira diferente da que é usada na época -, jovens, álcool, transgressão e a necessidade de estar acompanhado por pessoas que tenham esse mesmo tipo de “visão”. Qual a diferença? As autoridades francesas hoje, como quando da Noite da Nação, se preocupam e propõem medidas para coibir tais atitudes. Morin, no entanto, ao dar-se conta do ocorrido, percebeu que “havia uma inspiração na adolescência que buscava se exprimir através do Rock e que estavam formando, senão uma classe social, uma adolescência em si, entre o seio da infância e a integração do mundo adulto.

Bom, essa geração de baderneiros de 63 viveu e promoveu, 5 anos mais tarde, uma das maiores mudanças de paradigmas da nossa época, se não a maior. Hoje lê-se com entusiasmo pensadores como Morin, que viveram e sintetizaram o que viemos a viver hoje, tendo estado presente de certa maneira em sua criação. Essas pessoas hoje sao muito lidas, ou caras, ou geniais. Some-se a isso o fato de o que se chama hoje de “juventude” só aumenta. O ser humano consegue viver por mais tempo como um jovem adulto hoje do que ele podia há 40, 50 anos. Considere-se também o aumento da velocidade do mundo. As comunicações aumentam de velocidade, as transmissões de dados, o fluxo de informação aumentam tambem. A história acontece mais rápido. Banksy, em vida e ainda produzindo, vende mais de milhão de libras em um só leilão. Fato esse que nosso grande mestre das artes plásticas, Picasso, não conseguiu. Tudo, absolutamente tudo no mundo, anda muito mais rápido.

Temos, então, um ambiente hoje muito similar a esse outro e muito próximo, que abalou e ainda abala as estruturas do nosso sistema até hoje. E mesmo assim, vemos uma produção artística que não consegue atingir nem mesmo os jovens, quanto mais a população como um todo, como bem descreve o Trigo. Eu não sei, mas acho que a Arte Pop veio para tentar nos salvar, buscando numa linguagem universal em termos de classe social (todos eram familiarizados com as imagens das revistas e das propagandas, do rico dono capitalista à sua faxineira) uma expressão mais abrangente. No entanto, acho que a complexidade do sistema foi aumentando. O Urbano é um fenômeno historicamente novo e nada que ja vivemos muda tão rapido como essa tal de Urbe.

Dessa maneira, acredito que o Graffiti vem como a próxima tentativa de uma técnica/conceito a dar um norte para a produção artística. Acredito mesmo que estamos vivendo um momento de extrema importância para a história, tanto das artes quanto da sociedade. A grande questão, que não podemos responder ainda, é se isso vai dar em algum lugar, ou melhor, se essa linguagem vai conseguir se espalhar, se reproduzir, mudar e ainda conseguir sintetizar ou mesmo apreender essa complexidade tão grande quanto a que temos hoje.

Acredito que esse seja o momento de maior complexidade – no sentido de fatores altamente complexos se ligando e formando uma malha ainda mais complexa – que a humanidade já tenha vivido. A Cidade consegue trazer tantas coisas diferentes para a experiência de seu vivente. É um paraíso sensorial, de informações. É tanta coisa ao-mesmo-tempo-agora que as artes vão se mesclando, se sobrepondo, assim como na cidade. A tinta sai da tela, vai pra parede, pro chão ou mesmo some. O vídeo, a musica, a pintura, a escrita começam a se juntar e formar uns híbridos. Ao mesmo tempo, Allen Gisnberg ja gravou poemas acompanhado pelo Paul McCartney e uma banda num estúdio nos anos 60. Nada de novo debaixo do Sol.

Finalizando, acho que talvez, o problema enfrentado por Luciano Trigo seja que as pessoas não se dão conta do que está acontecendo ao seu redor. Basta abrir um pouco os olhos pro mundo e ver.

Agora, a grande questão é se a culpa de tanta falta de percepção é do leitor das obras artísticas ou mesmo do tal do artista.

Foi buscando em Fernando Pessoa um consolo para tal fato que encontrei no mestre dos mestres, Alberto Caeiro, algo a dizer sobre tudo isso:

“O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…”

Realmente, talvez o que nos falte seja o tal do pasmo essencial, coisa que Morin carrega consigo até hoje. Salve o velhinho!

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