Um todo coletivo é sempre mais do que a soma das partes

A Arte, como nova Epistemologia

Por Rui Gil

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A Arte, como nova Epistemologia

«I believe in God, only I spell it Nature.» – Frank Lloyd Wright

Viver, é algo que todos temos de aprender, mas que ninguém nos pode ensinar. Este velho ditado, remete-nos para uma das características mais singulares da condição humana. A de estarmos condenado a ser eternos diletantes. É impossível aprendermos tudo, porque todos os dias há mais para aprender. E, como o conhecimento está em permanente mutação, coisas que aprendemos no passado, são hoje obsoletas. Outras ganham novas cores, recombinam-se, mudam… É como se viver, fosse deambular pelas salas hexagonais da biblioteca de Babel. Um espaço infinito composto por todas as variações possíveis do conhecimento.

Mas o que é o conhecimento? Como é que o obtemos? Estas perguntas têm persistido nas mentes de filósofos, e cientistas durante séculos. Desde os gregos, passando por Kant, até aos nossos dias cibernéticos, muitas foram as epistemologias que pretenderam responder a estas perguntas. Apesar das respostas serem várias, ninguém duvida de que a Ciência é um poderoso instrumento para obter conhecimento, mas seria mais difícil encontrar alguém que dissesse o mesmo sobre a Arte. A definição mais comum de Arte, é a criação de objectos estéticos, ambientes e experiências que podem ser partilhados com outras pessoas, mas a maior parte delas, não vê isto como conhecimento.

Ver estes dois domínios, Arte e Ciência, como separados, é uma ilusão histórica bastante recente. Não é preciso recuar muito no tempo, para encontrarmos uma época onde a Arte e a Ciência eram uma e a mesma coisa. Basta pensar em Leonardo da Vinci, para verificar que na Renascença esta distinção simplesmente não existia. Gregory Bateson dizia que se confundires a tua epistemologia, tornas-te um psicótico. Ver como separadas coisas que na verdade são iguais, (Como por exemplo, o Homem e a Natureza), faz com que o Homem destrua a natureza, e por consequência se destrua a si próprio. Por isso não é difícil vermos que a divisão entre Arte e Ciência é também resultado da confusão epistemológica actual.

Costuma-se dizer que ciência, não é um nome, mas um verbo, porque a ciência não é uma estrutura estática de conhecimento, mas sim um processo em permanente movimento. Esse processo, chamado de método científico, é maioritariamente dedutivo. Tudo começa na experiência dos sentidos, depois na formulação de hipóteses para explicar as regularidades das observações, ao qual se segue a dedução de previsões que sustentem essas hipóteses, que depois são testadas e verificadas, para construir «leis naturais». Podemos ver estas «leis naturais»  como a parte indutiva do processo.

Este processo é altamente eficaz, e produziu os enormes avanços no conhecimento, dos últimos séculos. Os sucessos foram tantos, que criou a chamada «ilusão positivista». A ideia de que não há nada que a ciência não possa conhecer, nem há conhecimento válido fora do método cientifico. Ora isto é uma ilusão, por várias razões, mas a principal é porque o método científico tem limites. Existem limites teóricos, naquilo que podemos medirprever, e provar. Estes limites são fundamentais, na medida em que não dependem de avanços tecnológicos, e criam um «horizonte» de conhecimento, para além do qual não conseguimos ir… Tendo isto em conta, há uma pergunta que se impõe: Será que conseguimos alargar esse horizonte de conhecimento, alterando o método pela qual o obtemos? Qual o papel da Arte em tudo isto?

É preciso notar, que a visão do mundo proporcionada pelo conhecimento científico, sofreu uma profunda transformação nas últimas décadas. Podemos dizer que o paradigma que orientava o processo científico, sofreu uma mutação, que criou o espaço para a Arte se afirmar como um método de conhecimento. Isto, porque passámos de uma visão reducionista e materialista, para uma emergentista e criativa.

A visão reducionista do mundo, foi uma herança histórica herdada de Newton, que via o Universo como um relógio. Para conhecer esta máquina só teríamos de conhecer as suas várias partes. A vida era assim vista como sendo, nada mais que biologia, que por sua vez, nada mais era que química, que nada mais era que física, que nada mais era do que colisões da partícula fundamental, que por sua vez… nunca foi encontrada. Para um reducionista, um avião nada mais é do que a soma das suas partes, ignorando o óbvio. Há uma quantidade infinita de formas de organizar essas partes, mas apenas uma que permite voar!

Segundo a visão emergentista, um todo colectivo é sempre mais do que a soma das partes. Este «mais» é informação. Essa informação está contida na organização particular dessas partes, que distingue um avião, de um monte de sucata. O diamante e a grafite são ambos feitos de carbono. Um é transparente e inquebrável, enquanto que o outro é opaco e frágil. Nenhum físico conseguiria olhar para uma única molécula de carbono e deduzir as propriedades do todo colectivo, porque estas propriedades dependem de uma organização particular. Por isso é que um todo colectivo é mais do que a soma das partes, porque possui propriedades que dependem da sua organização particular, e que não podem ser encontradas nas partes individuais. No caso dos seres vivos, a sua organização muda ao longo do tempo, o que significa que, para além da informação da organização, existe a informação da sua dinâmica temporal. Quanto mais complexo, mais informação possui.

Essa nova visão do mundo, revela algo de óbvio. Que o Universo não é uma máquina estática, mas é fundamentalmente criativo. A vida é um processo de autopoiese, que ao organizar-se, cria continuamente novas propriedades. Estas propriedades dependem da história do processo e do acaso, por isso o determinismo é um caso particular, e não a regra. Isto é o mesmo que dizer que o futuro está em aberto e é imprevisível, porque nunca conseguiremos saber quais as propriedades que vão ser efectivamente criadas. Aqui começamos a ver uma relação entre a Arte, e esta nova visão do mundo, porque a Arte, nunca foi reducionista. Não apreciamos uma peça de Mozart, analisando cada uma das notas, ou o retrato de Mona Lisa, analisando os pigmentos de cor da tela, porque toda a obra de arte é um todo colectivo por natureza. Um todo colectivo que privilegia a organização entre partes, para exprimir significado e beleza.

Segundo um positivista, não podemos aprender nada com a Arte, porque o conhecimento é proposicional. O conhecimento deriva da experiência e da razão e é exprimido em factos, na linguagem da matemática ou da lógica. Esta é uma definição empírica e racional, mas bastante limitada. Segundo esta definição saber andar de bicicleta, ou saber tocar um instrumento, não representa conhecimento, porque não existe um conjunto objectivo de factos que o descrevam. É privilegiado o know-that (partes) e ignorado o know-how (todo colectivo). Essencialmente esta definição representa o pensamento reducionista estendido à epistemologia. Assume um mundo objectivo, onde os factos são a «partícula fundamental» do conhecimento, ignorando a organização desse conhecimento em estruturas compostas, colectivas e coerentes.

Felizmente o positivismo não é a única epistemologia possível. É interessante que Kant tenha dito na sua Critica do Julgamento, que o acto estético mais fundamental era a selecção de um facto, porque isso sugere a estética está no centro do conhecimento, e que a objectividade é uma ilusão, ideias que construcionismo defende. O argumento que suporta a ilusão da objectividade é simples. Como os nossos sentidos são limitados, (mesmo com toda a tecnologia e instrumentos de medir), não conseguimos ter acesso à «realidade» mas apenas a uma representação subjectiva da mesma. Uma metáfora para isto seria, um homem colocar uma câmara de video fora da sua casa, ligada à televisão, e depois, olhando para a televisão dissesse que estávamos a olhar para a «realidade». A televisão não é a  «realidade» mas apenas uma representação subjectiva da mesma. Não existe uma objectividade «real». Aquilo que chamamos de objectividade, não é mais do que  subjectividade partilhada com outras pessoas, ou como dizia Howard Bloom, «Reality is a Shared Hallucination».

Portanto, se não conseguimos separar o processo de conhecer, do nosso próprio mundo subjectivo, nem conseguimos separar o know-how, do know-that, podemos ver que a Arte não é realmente uma nova epistemologia, mas apenas uma que esquecemos por causa da nossa confusão positivista. Podemos começar a aperceber-nos que o processo criativo está no centro do processo de conhecer. É verdade que os cientistas como indivíduos são pessoas muito criativas, mas a Ciência como um todo não o é, porque continua a focar-se nas partes em vez do todo, e o resultado é a excessiva fragmentação e especialização da ciência. Defender a Arte como uma nova epistemologia, não é dizer que ela deve substituir aquilo que conhecemos hoje como o método cientifico, mas trazer para o processo de conhecer as qualidade únicas do processo criativo. Estas qualidades são a capacidade de integrar, relacionar, organizar, criar estruturas coerentes de significado, beleza e conhecimento entre vários níveis e domínios, que se possam relacionar, com o nosso mundo subjectivo partilhado.

Humberto Maturana, e Francisco Varela no seu livro «The Tree of Knowledge» partilharam grande parte destas ideias, mas com um significado mais abrangente. Segundo eles, o Universo não é apenas fundamentalmente criativo, mas este processo criativo, é um processo de cognição, de aprendizagem. Existe uma dualidade entre o know-how e o know-that. Quando construímos o nosso mundo subjectivo de know-that, mudamos a forma em como agimos no mundo do know-how. Esta circularidade entre acção e a experiência, é comum a todos os seres vivos, e é por isso que eles dizem que «todo o saber é fazer, e todo o fazer é saber». Este processo de conhecimento não está apenas restrito a mente humana, mas é intrínseco, à própria vida. Isto significa que o processo de conhecimento, o criativo, e o da vida, são uma e a mesma coisa.

Quando olhamos para a bela forma hidrodinâmica de um tubarão, ou para a as penas ultra silenciosas de um mocho, percebemos que estas formas, são conhecimento que a Natureza «cristalizou» em seres vivos adaptados ao seu ambiente. Quando vemos uma paramécia, a nadar num gradiente de glucose, ficamos maravilhados por uma forma de vida tão simples «saber» fazer isso. Este processo de cognição, acelerou com o aparecimento dos seres humanos, e está a explodir nos nossos dias cibernéticos. Portanto aquilo que chamamos de Mente, já não pode ser limitado ao cérebro humano, mas algo que se estende através de circuitos, e relações, fora dos nossos corpos, ligados a uma Mente maior, da qual a mente humana, é apenas um subsistema. A Mente torna-se a própria estrutura evolutiva total. Ou como o Gregory Bateson diria: «This larger Mind is comparable to God and is perhaps what some people mean by “God,” but it is still immanent in the total interconnected social system and planetary ecology»

Esta imagem representa a árvore da vida. É uma obra de arte, que cobre a parede do templo Wat Xieng Thong, em Luang Prabang no Laos. O mito da árvore da vida, é comum a muitas civilizações antigas, e representa a ascensão da terra até ao céu, ou o caminho para Deus. Não é preciso puxar pela imaginação para ver na imagem o conhecimento da evolução, e de que todas as coisas estão ligadas, com os seus vários ramos e a ascensão da complexidade das formas, séculos antes de Darwin. É uma estrutura que se diversifica, mas ao mesmo tempo se mantêm coerente. Os kabalistas achavam que sim, e usaram o mito da árvore da vida para um modelo da criação, e não é coincidência que a árvore da qual Adão comeu o fruto proibido, era a árvore do conhecimento do bem e do mal… Ao continuarmos a deambular pela biblioteca de Babel, encontraremos um dia as palavras de Borges. «a tarefa da arte é a de transformar aquilo que nos acontece, transformar tudo em símbolos, em música, em algo que fique na memória»

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